Data: 07/01/2010
Quero começar o ano discutindo novos rumos para o ensino da língua portuguesa nas salas de aula. Parece-me que, nas séries iniciais, existe uma preocupação muito grande com nomenclatura gramatical. Já escrevi aqui outras vezes: ensinar nomes não é ensinar gramática!
Tenho tido acesso a exercícios e provas de alguns colégios da cidade. Para muita gente, virou moda defender a tese de que “gramática se ensina com aplicações nos textos”. A tese é bonita, mas o que se vê na prática é um conjunto de equívocos que apenas reitera práticas arcaicas. Coisas como “retire do texto dois substantivos” ou “classifique os verbos em regulares ou irregulares” são exercícios comuns que levam o aluno do nada ao lugar algum.
Quer um outro exemplo? As aulas de verbos. Crianças do Ensino Fundamental levam para casa listas enormes de verbos, todos colocados em tabelinhas com os tempos conjugados em todas as pessoas. Para que serve aquilo? Para os alunos odiarem verbos e perderem tempo. Ganhariam mais se estivessem lendo algum gibizinho. Quando se pede numa prova ou num exercício para o aluno escrever em que tempo está o verbo, perde-se a oportunidade de discutir as diferenças que existem entre a forma e o significado. É claro que na frase “Prefeito inaugura mais uma policlínica” o verbo está no presente. Mas, quando um jornal estampa essa frase e escreve que a inauguração ocorreu no dia anterior à publicação, percebemos que a forma do presente (“inaugura”) não tem valor de presente. E aí toda a preocupação com a classificação metódica vai por água abaixo. Muitas vezes, o presente do indicativo representa um fato intemporal.
É urgente, pois, que as aulas de gramática não se baseiem em classificações e definições, como se essas fossem verdades inquestionáveis. Por que aceitar que o sujeito é um “termo essencial da oração” se a própria gramática reconhece a existência de “oração sem sujeito”? É por essas e outras que precisamos incentivar nossos alunos à leitura. Somente por meio da leitura eles aprenderão outros níveis de linguagem.
Quanto aos pais, seria muito bom que neste ano novo alguns deixassem a preguiça de lado e começassem a dar exemplos. Querem que a escola faça milagres? Não seria mais fácil incentivar os filhos a ler colocando livros e jornais dentro de casa? Não seria mais construtivo levá-los a uma livraria do que levá-los a uma mesa de bar? Não seria mais convincente falar do valor e da importância da leitura quando os filhos veem os pais lendo? Exemplos valem mais que palavras...