Os Monstros das Universidades
Data: 31/03/2010

Imagine a alegria de um pai ao ver o filho entrar na universidade. Imagine a alegria de um jovem no primeiro dia de aula na faculdade. Agora imagine sua filha sendo obrigada a tirar a roupa na frente de um bando de estúpidos que se dizem estudantes. Imagine seu filho sendo espancado ou obrigado a beber urina por esses mesmos selvagens. Agora imagine que esses algozes serão, em breve, médicos, advogados ou professores.
No início de cada ano letivo, as emissoras de TV brasileiras costumam mostrar reportagens sobre os trotes nas universidades. Há poucas semanas, o Fantástico, da Rede Globo, exibiu longa matéria mostrando como estudantes de um curso de medicina tratavam os “calouros”, estudantes que acabaram de entrar na universidade. Violência, humilhação e perversão são os ingredientes usados por aqueles que, em breve, estarão atendendo como médicos em diversos hospitais.
Os trotes não são uma invenção brasileira. Na Europa da Idade Média, já havia o costume de separar veteranos de calouros. No século XIV, universidades da França já tinham seus casos de trotes violentos. No século XVIII, Portugal recorreu a esse “rito de passagem”. Foi de lá que brasileiros trouxeram a “novidade”. Há quem diga que a primeira morte por causa dos trotes teria ocorrido em 1831, na Faculdade de Direito de Olinda. De lá para cá, os casos se acumulam. Quem não se lembra do estudante Edison Tsung Chi Hsueh, que apareceu morto na piscina da Faculdade de Medicina da USP em 1999?
O que ocorre com esses selvagens travestidos de estudantes? Nada. Como os atos bárbaros são cometidos por grupos, dificilmente alguém é responsabilizado pelos crimes. No caso dos estudantes de medicina, que conhecem mais que ninguém as limitações humanas, os trotes parecem ainda mais terríveis. Jovens que abraçaram uma das mais nobres profissões já se mostram insensíveis à dor alheia. E pior: divertem-se com ela.
Há, claro, aqueles que adotam o “trote solidário”. Os calouros têm de arrecadar alimentos, ajudar a quem precisa. Essa é uma grande lição. Mas o que se alastra por esse Brasilzinho afora é a banalização da violência contra os que entram no Ensino Superior. Como coibir? O que fazer? As faculdades alegam que não podem tomar providência alguma contra atos praticados fora da instituição. E disso se valem os estudantes para perpetuar esse prática da Idade Média em pleno século XXI. Não bastasse o uso de álcool e drogas pesadas por parte de alguns universitários, agora temos de assistir à prática da violência como se vivêssemos num coliseu romano.
O solo fértil para os trotes violentos tem nome: impunidade. Enquanto selvagens que humilham moças obrigando-as a se despir ou espancam rapazes sob o pretexto da “brincadeira” não forem colocados atrás das grades e expulsos de seus cursos, presenciaremos, a cada ano, cenas de jovens que veem a entrada no curso superior transformada num pesadelo físico e moral. Nesses casos, não estamos lidando com futuros médicos, advogados, professores, engenheiros... Estamos lidando com criminosos. E lugar de criminoso é na cadeia.
Até a próxima semana.