Venceu o Machismo. Venceu o Brasil
Data: 31/03/2010

Não tenho lá esse orgulho ufanista de ser brasileiro. Muito mais que de sabiás e palmeiras, bosques floridos ou berço esplêndido, este país é feito de corruptos, gente que tenta tirar proveito de tudo (justificando que é o “jeitinho brasileiro”) e exemplos deploráveis de preconceitos. Somos mal-educados, grosseiros, machistas. Temos uma educação vexaminosa e índices de violência que nos igualam a países que estão em guerra. O número de nossos mortos nas estradas (que deve aumentar neste feriado) supera o de mortos em guerras como a do Iraque. Ou seja, o Brasil está longe de ser civilizado.
Na última terça-feira, mais um (péssimo) exemplo do povo que temos. O Brasil elegeu um troglodita como vencedor do Big Brother Brasil 10. Marcelo Dourado embolsou 1,5 milhão de reais ensinando que só os homossexuais contraem AIDS, afirmando que mulher deve “pastar um pouco” antes de receber algum tipo de declaração amorosa e soltando frases como “apesar de ser veado, ‘seje’ homem” (quando se irritou com o maquiador Dicésar). Contra a concorrente Angélica (apelidada de “Morango”), foi além: “Era pra mim (sic) ter quebrado o dedo dela e ter dado um monte de porrada e ter deixado ela desmaiada no hospital”, disse o “herói” campeão. Não bastasse, traz tatuada no próprio corpo a suástica, símbolo do nazismo. Ou seja, Marcelo Dourado é o protótipo do homem machão, insensível, que acha que as mulheres são objetos de prazer. Violento, tentou se controlar durante todo o tempo, num exercício diário de fingimento. Dourado é a cara do Brasil. O Brasil é dourado.
É bem verdade que nenhum dos três finalistas tinha motivos para vencer (alguém tinha?). Mas entre um banana manipulado, uma pseudossanta e um troglodita mal-educado e machista, fizemos a pior escolha. Nada surpreendente: somos brasileiros!! O prêmio que o Brasil entregou a Marcelo Dourado é um não à emancipação feminina, aos direitos dos homossexuais e ao respeito à diversidade. É um não à índole pacífica (que alguém um dia achou ser “a cara do brasileiro”). Enfim, a vitória do lutador é a vitória de nossa verdadeira face, do que realmente somos. Protegidos pelo anonimato do celular e da internet, votamos não em Dourado, mas no que ele representava. Pudemos exercer toda a nossa mesquinhez e arrogância elegendo um símbolo do Homem com “H”.
Na final, o personagem Cadu foi apenas coadjuvante. Até mesmo Fernanda, a loirinha que não dançava porque o até então namorado é evangélico, não tinha torcida. Na final do BBB 10, só havia os pró-Dourado e os anti-Dourado. Venceu o machismo, a falta de educação, o desrespeito às diferenças. Venceu, enfim, o Brasil.