Entre a coragem e a subserviência
Data: 13/04/2010

Ano passado, comentando a decisão corajosa da Fundação de Cultura e Turismo de Caruaru de não trazer para o São João algumas bandas de forró estilizado, escrevi nesta coluna: “Depois de oito anos, Caruaru voltou ser realmente parada obrigatória dos turistas. Uma extensa programação cultural tomou conta da cidade. Grandes intérpretes regionais e nacionais, a exemplo de Valdir Santos, Chico César, Nando Cordel e outros abrilhantaram a festa. E nada das infames bandas de forró estilizado. Parabéns, Pereira. Você foi grande!” No artigo, fiz questão de elogiar a atuação da Prefeitura e do Secretário de Cultura, José Pereira.
Mas eis que, mês passado, li pela imprensa local que o prefeito José Queiroz andou recebendo jovens “conscientes” que reivindicam a volta do vexame. Li também que a Secretaria de Cultura estaria “avaliando” a situação. Uma pena. Terá ela a coragem de preservar nossas raízes culturais ou dará lugar à subserviência mercadológica?
Ainda segundo as reportagens, a Secretaria de Cultura estaria exigindo dessas bandas uma mudança no repertório. Outra vergonha. Isso é censura. As bandas, se contratadas, têm direito de cantar o que bem entenderem. Se as letras infames fazem parte do repertório delas, se a apologia ao sexo faz parte do repertório delas, se o enaltecimento à bebedeira faz parte do repertório delas, então elas têm direito de cantar tudo isso. Afinal, o mundo é feito de cabarés, a vida deve ser vivida com muita bebedeira e “quem não aguentar que corra, corra, corra”!!!
Já escrevi aqui: dinheiro público não deve financiar baixaria. E a Secretaria de Cultura e Turismo sabe disso. Que formidável ver aqui na cidade 14 Bis e Zeca Baleiro! Que maravilhoso resgate do turismo na Semana Santa! Que legal ver bandas caruaruenses se apresentando no Polo Cultural!! E agora querem jogar tudo fora? Vamos ser conscientes! Mas de verdade!!!
Muito mais vergonhoso do que as letras maliciosas e vulgares, coreografias maliciosas e vulgares e cantores maliciosos e vulgares é o uso do dinheiro público para financiar a malícia e a vulgaridade. Para que pagamos IPTU? Para alguém nos mandar “chupar, que é de uva”? Para alguém propor “explodir um cabaré” só para ver “pedaço de mulher” por todos os lados? Não, não é para isso que pagamos. Quero acreditar que nossos governantes nem pensam em voltar atrás.
Vamos aguardar os próximos capítulos da novelinha. Se vão contratar as bandas de forró estilizado, que não imponham nenhum tipo de censura. Se vão ter coragem de manter um São João de alto nível para as famílias – mesmo que não agrade a jovens “conscientes” – , que não contratem esses representantes do “forró fuleiragem”. As famílias caruaruenses e os artistas da terra confiam em Queiroz e em Pereira. Contratos superfaturados, falta de refinamento e ausência de compostura não condizem com uma administração que, de fato, está mudando a cara da cidade. Ceder agora às pressões dos empresários do setor vai pegar muito mal. E como perguntar não ofende, fica a pergunta que não quer calar: quem ganha com a contratação de bandas que nada têm a dizer e em nada contribuem para a cultura caruaruense? Quem ganha???
A Capital do Forró não merece “aquilo” de novo. Até a próxima semana.