A CRASE E O SENTIDO
Data: 07/09/2011

Quem nunca se viu traído por uma crase que atire a primeira pedra. Não tem jeito: vira e mexe, e lá está a danadinha querendo nos humilhar. Semana passada, um quiosque do North Shopping exibia, vergonhosamente, um sinal grave (indicativo de crase) na expressão “a partir”, contrariando um dos princípios básicos do assunto: não se usa o acento grave diante de verbos. E com tanta gente visitando aquele centro de compras (principalmente para ir aos cinemas - ah, cinemas...), parecia um insulto ver aquele sinal imenso, humilhando a pobre vendedora que nada tem a ver com isso.
Há regrinhas básicas para o uso do acento grave (para facilitar, vamos chamar de “crase” mesmo, ok?), mas o mais curioso é que, às vezes, ele é capaz de mudar o sentido da oração. Imagine alguém que escreve “Ela cheira a flor”. Teria o mesmo sentido de “Ela cheira à flor” (com acento)? Claro que não. No primeiro exemplo, alguém aspira o perfume da flor. No segundo, a garota está com cheiro de flor.
O sentido também fica diferente quando trocamos “Meu problema é a vista” por “Meu problema é à vista”. No primeiro caso, há uma queixa quanto à visão; no segundo, quanto à capacidade de comprar com pagamento imediato.
Há outros casos. “Bater a porta” é fechá-la com violência; “bater à porta” é bater nela com a intenção de chamar alguém. “Desenhar a caneta” é fazer o desenho de uma caneta; “desenhar à caneta” é usar uma caneta para desenhar algo. Se escrevemos “Chegou a noite”, estamos dizendo que anoiteceu, que a noite chegou; se escrevemos “Chegou à noite”, estamos afirmando que alguém chegou no período noturno.
Como se vê, a crase não é mais uma “frescura” da língua portuguesa. Um conselho: na dúvida, não empregue o acento. A probabilidade de ele não existir é muito maior do que a de precisar empregá-lo. Além disso, se você não usa, o deslize pode parecer “esquecimento”. Mas quando se usa um acento onde ele não existe, aí não tem jeito: é erro mesmo. Mas que isso não justifique crises permanentes de amnésia, não é?